A Rede

Um blog sobre as redes da vida e a vida das redes, por Dalberto Adulis

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Arqueologia da Rede

Posted by dalberto em 5 fevereiro, 2009

Depois de 6 meses sem postar no blog retomo a atividade postando o historico da minha atuacao no campo das redes que estou publicando no espaço virtual (NING) da Escola de Redes

Arqueologia da Rede

Ola,

Não é fácil fazer um relato sobre meu envolvimento com a temática das redes, por diferentes razões. Primeiro, porque ele teve início a quase anos, quando coordenava projetos de pesquisa e consultoria no CEATS-USP. De lá para cá muita coisa se passou e mudou. Em segundo lugar, porque a minha relação com as redes já envolveu aspectos muito distintos, cada um deles podendo ser visto como um campo específico de atuação (redes e desenvolvimento, redes sociais, redes e tecnologias de informação, facilitação de redes, redes e colaboração etc) E finalmente, porque nos dias de hoje é cada vez mais difícil encontrarmos tempo para dedicar a atenção necessária às diferentes redes às quais estamos vinculados, entre as quais, a própria Escola de Redes.

Diante destas dificuldades, acabei adiando tanto a elaboração desse relato, que talvez uma solução seja iniciá-lo e, pouco a pouco, ir aprimorando, criando versões mais atualizadas, aproveitando os recursos que a Internet oferece para este tipo de narrativa.

Então, vamos comecar… pelo princípio….

–(Bem, eu já estava começando a escrever o início do meu envolvimento quando percebi que vou acabar escrvendo um tanto sobre cada etapa. Ao tentar lembra os principais acontecimentos percebo que há várias histórias que podem ser contadas, e parece que este esforço pode ser profícuo, permitindo que eu identifique algumas das principais aprendizegens nesta trajetória. Sendo assim, acho que vou publicando aos poucos, etapa por etapa, a minha caminhada neste campo das redes.

Arqueologia das Redes

1 – Rede de Projetos Sociais na Amazônia – (1996 – 1999)

A minha primeira incursão no mundo das redes ocorreu há 15 anos atrás, quando trabalhava como pesquisador e consultor fa FIA/FEA/USP e CEATS – Centro de Estudos em Administração do Terceiro Setor. Entre 1995 e 1996 tive a oportunidade de trabalhar em projetos voltados ao mapeamento de organizações e iniciativas voltadas à promoção da inclusão social e formação profissional nos nove estados da Amazônia Legal. Esta iniciativa, realizada para a SUDAM, foi realizada a partir de uma metodologia de pesquisa-ação que conciliava levantamento de informações, engajamento e capacitação de atores dos diferentes setores atuantes na região.Durante o projeto foram mapeados e catalogados mais de 700 projetos e 400 organizações que atuavam na região, permitindo a publicação de um panorâma da atuação dessas organizações naquela época.

Entre as recomendações no final do projeto destacava-se a necessidade da criação de uma rede de organizações que pudesse atualizar, através da Internet, informações sobre as ações sociais desenvolvidas na região. O apoio à criação dessas redes (de organizações e de informações) foi o principal objeto do projeto BIPSAM – Banco Interativo de Projetos Sociais da Amazônia, desenvolvido entre 1998 e 1999, quando pude realizar pesquisas e entrar em contato com diversos autores, ativistas e organizações trabalhando sobre o tema. Quais foram as principais referências naquela época ?

Academicamente, foi um marco para mim A Sociedade em Rede, de Castells. Do ponto de vista da atuação prática, no campo da sociedade civil, era marcante o pioneirismo da RITS, que se propunha a criar uma rede de informações para as organizações do terceiro setor além de facilitar o acesso às novas TICs (tecnologias de informação e comunicação). E no campo do desenvolvimento, destacava-se os esforços de algumas organizações multilaterais, interessadas em promover a articulação de redes entre as organizações voltadas ao desenvolvimento. Na etapa de prospecção tive a oportunidade de entrar contato com propostas e gestores de programas do Banco Mundial (InfoDev), PNUD, BID, UNESCO e GKP (Global Knowledge Partnership), além de participar da Escuela Latinoamericana de Redes, promovida pela Internet Society, em Mérida/Venezuela.
Logo no início do projeto realizamos reuniões com o propõsito de integrar a RITS ao projeto, assim como contatos com outras organizações interessadas em apoiar projetos desta natureza,, porém, conforme percebemos ao longo do projeto, ainda não haviam as condições mínimas para se construir uma rede que dependesse da comunicação através da Internet O projeto promoveu o envolvimento das principais organizações atuantes na região, que reconheceram a relevância de uma rede e um banco interativo de projetos sobre a sua atuação, mas a exclusão digital na região era tão grande (menos 1% da população com acesso à Internet), que foi difícil sustentar a rede após o término do projeto.

A experiência e a aprendizagem obtida neste primeiro projeto no campo das redes foram marcantes, e posso falar mais sobre elas em outro momento, mas por hora acho que posso deixar alguns links..
(É surpreendente encontrar esses links através do Google, tanto depois desses conteúdos terem sido publicados. Isto nos faz pensar sobre nossas pegadas na Web….)

Website do Projeto e do Banco de Dadoshttp://www.genamaz.org.br/bipsam/index.htm

Noticia na RETS http://www.genamaz.org.br/bipsam/index.htm

Artigo sobre o projeto na RAU/USPhttp://www.rausp.usp.br/busca/artigo.asp?num_artigo=5
—–

Próximas etapas…

2 – Les Reseaux – Paris – 2000 – 2001
3 – Redes Colaboração e Aprepriação Social das TICs – RITS – 2002 – 2007 – RITS
4 – Redes para o Desenvolvimento – ABDL – 2002 – 2007
5 – Liderança e Desenvolvimento em redes – ABDL – (2007 – ?)

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Publicando em outro Blog..

Posted by dalberto em 22 novembro, 2007

Depois de um bom tempo sem conseguir postar artigos na Blogosfera retomo a atividade postando ativamente em um Blog sobre Mudancas Climaticas,  a partir do Blog dos brasileiros do Redesenvolvimento 2007 (LEAD 12) que estarao participando do Seminario Leadership and Climate Change, em Jakarta e Bandung,  e da Conferencia do Clima, organizada pela ONU, em Bali, onde sera definido o futuro”Pos Kyoto”.

Meu primeiro Post traz algumas impressoes da minha passagem por Dubai, a caminho da Indonesia.

De Passagem por Dubai

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Um Mapa das Comunidades Virtuais

Posted by dalberto em 2 maio, 2007

Este é um mapa interessante do ciberespaço que mostra algumas das principais comunidades virtuais (redes sociais) existentes na web. Em princípio o tamanho de cada território esta relacionado ao número de usuários.

A charge foi publicada em um website de comics chamado XKCD.

online

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A dificil adoção de novas tecnologias

Posted by dalberto em 16 março, 2007

Muitas vezes é difícil convencer as pessoas sobre a uitilidade de certas tecnologias, mas nada se compara ao esforço necessário para capacitá-las e oferecer suporte.

Este vídeo sueco (?) divertido mostra como isso pode acontecer até com “ferramentas” simples, como um livro. Pode ser um bom recurso para se pensar no papel de cada um de nós diante das inovações.

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Indios na Rede

Posted by dalberto em 19 fevereiro, 2007

O Programa Cultura Viva, do Ministerio da Cultura, destacou algumas iniciativas voltadas à preservação e fortalecimento da cultura indígena que utilizam os Pontos de Cultura, empregando vídeo, Internet e outros meios de comunicação, que sao apresentadas a seguir.

Uma discussao sobre programas televisivos sobre o tema pode ser vistas no post Shampoo, Xingu e Aquecimento Global

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Tem Índio na Rede
(Fábia Galvão)
(Fonte: Portal Vídeo na Aldeias e Índios on-line)

Amigo do Índio (MS)
Baseado na proposta que foi discutida com a comunidade indígena e representantes, o Ponto de Cultura Amigo do Índio (MS) dá continuidade à valorização da cultura indígena promovida por grupo de professores da cidade de Dourados que trabalha com o ensino diferenciado (guarani-português) na educação fundamental. A proposta do projeto é difundir danças e brincadeiras tradicionais do povo indígena, apresentando, além da riqueza cultural, a tradição da tribo presente na música Guarani-Kaiowá e Guarani-Nãndeva. Trabalho coletivo, integração e a sustentabilidade da comunidade são algumas das práticas e idéias estimuladas no Ponto

Vídeo nas Aldeias – AC

O Projeto Vídeo nas Aldeias promove, há quatorze anos, o encontro do índio com a sua imagem. Sua proposta é tornar o vídeo um instrumento de expressão da sua identidade, refletindo a sua visão sobre si mesmo e o mundo. Ao equipar comunidades indígenas com aparelhos de vídeo, o projeto estimulou intercâmbio de imagens e informações entre os povos.

A formação de realizadores indígenas foi feita, inicialmente, de aldeia em aldeia, produzindo registros para o uso interno. Hoje, através de oficinas nacionais e regionais, eles aprendem e discutem, juntos , como falar da sua realidade para o seu povo e para o mundo. Seus documentários tratam de temas que suas comunidades consideram importantes. O acervo do projeto conta com um conjunto de documentários produzidos pela equipe de formadores e pelos realizadores indígenas. Conveniado em 2005 pelo Programa Cultura Viva, o

Índios Yawalapiti -MT
O Ponto de cultura do Xingu

Mavutsinim, herói mitológico e espírito primordial dos povos do Alto Xingu, queria os índios imortais. Na sagrada praia do Morená (encontro dos rios Kuluene, Ronuro e Batovi formadores do rio Xingu) ele plantou os Kuarup, os troncos, que viraram gente e a morte nunca mais fecharia seu ciclo de encerramento: era só passagem. A longa trajetória do extermínio começou no equívoco inicial dos portugueses: chamaram esses povos de “índios”, pois julgavam estar nas Índias. Mavutsinim começava sua árdua tarefa para renascer gente de tronco.

Sarampo, gripe, diarréia, açúcar, garimpo, boi, pasto, grileiros, pressão do consumo, assédio e sedução desonesta, massacre da língua, torpeza pela submissão ao álcool, açúcar e o cerco das terras pelo manto verde da morte, hoje chamado “soja”, é imensa a lista do massacre. O que espanta é a capacidade de resistência das aldeias e quanto os Villas Boas estavam certo em garantir o território do Xingu para cumprir o slogan da identidade cultural: “posso ser o que você é sem deixar de ser quem eu sou”.

Os Yawalapiti do cacique Aritana (filho do legendário Kanato tão citado pelos Villas Boas) já foram dados como extintos. Perdiam a língua (família Aruak), os contos, os cantos, os ritos e as coisas da sua cultura. Feridos mortalmente na razão de existir. Foi quando os Villas Boas começaram a eliminar a dispersão e a primeira aldeia foi criada. A liderança de Aritana repercute em todo Xingu. Os Yawalapiti perceberam que deviam ir mais fundo, na raiz. A língua, por exemplo. A pesquisadora Jaqueline França dedicou seis anos de trabalho para coletar dados e peças que resultassem numa arqueologia de almas. Hoje, está no ponto da cartilha. Da associação de sons a escritos. Os Yawalapiti, pela memória, pela história, pelo valor humano, tornam-se imortais como desejava Mavutsinin. Agora, eles podem registrar e dar as suas versões dos meios e modos de viver.

Leia a relato da comunidade dos Yawalapiti na ìntegra

Índios on line – BA

Os índios pesquisam suas culturas, resgatam suas histórias, preservam suas tradições, arquivam parte de suas memórias, partilham parte de seus conhecimentos. Sete nações indígenas se comunicam no portal do projeto: Kiriri, Tupinambá, Pataxó-Hãhãhãe e Tumbalalá na Bahia, Xucuru-Kariri, Kariri-Xocó em Alagoas e os Pankararu em Pernambuco. As tribos buscam aliados no mundo para intercambiar informações, sentimentos e impressões. O Ponto de Cultura Índios on line (BA) desenvolve produções audiovisuais que refletem a sua realidade e compartilham suas experiências na internet, espaço onde ocorre também o aprendizado à distância (e-learning).

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Shampoo, Xingú e Aquecimento Global na TV

Posted by dalberto em 15 fevereiro, 2007

Ao que parece a Midia finalmente decidiu abrir espaço em sua programação para falar sobre o aquecimento global. Desde a divulgação do relatório sobre mudanças climáticas em Paris, há 15 dias, diversas materias e programas vem abordando o tema. Não há dúvidas de que a maior parte das matérias são superficiais, mas pode-se tambem encontrar alguns com qualidade. De todo modo parece que finalmente o tema entrou de vez na agenda e na cabeca das pessoas, o que é o primeiro passo para se realizar algo.

Ontem por coincidência, dois programas abordaram a questão ambiental levando em conta a situação atual do Parque Nacional do Xingú.

time of creation. Originally uploaded by Tatiana Cardeal.

O primeiro foi um “Conexao Roberto Davilla”, na TV Cultura, tendo Washington Novaes como entrevistado. Programa excelente abordando a questão ambiental e a sua experiência no parque nacional do Xingu, há mais de 20 anos. Lembrou Pierre Clastres, que dizia que geralmente nos referimos aos índios pelo “negativo”, enfatizando o que eles não possuem , como roupas, TV ou automóveis, quando na realidade, o importante seria compreender o que eles tem que nós, ocidentais, não temos.

Para Clastres, os indios tem pelo menos 3 coisas importantes que não existem na nossa sociedade:

  1. Autonomia– marcada pela capacidade de subsistência. Em uma aldeia há uma divisão entre os que pescam, cacam, cozinham, constroem e curam, permitindo que o grupo viva autonomamente, sem precisar de recursos externos.
  2. Independência– Os indígenas não se subordinam aos outros indígenas. O cacique o o pajé são detentores de um saber acumulado que pode ser utilizado em aconselhamentos e moderação de conflitos
  3. Conhecimento compartilhado – O conhecimento é transmitido oralmente e compartilhado por todos, servindo a toda a comunidade.

Estas três características desapareceram da sociedade ocidental há muito tempo, mas são fundamentos próximos aos que buscamos quando falamos em sociedade em rede, trabalho colaboratibo e conhecimento livre. Talvez seja um bom momento para reler o clássico A Sociedade Contra o Estado, de Clastres.

O segundo programa foi um especial do SBT, realizado basicamente por uma reporter que pasosu menos de 1 semana no parque. O aprentador do programa fazia um breve resumo do que seria mostrado em cada bloco, no estilo Globo Reporter), e se referia à reporter como “A Reporter”, falando frases como “Agora, a Reporter visitará a aldeia XYZ…em seguida a reporter presenciará uma cerimonia do Quarup”, e por ai a fora.

Em um dos blocos “a reporter” (não sei seu nome, pois nao disseram nem apareceu nas legendas) pergunta ao Cacique se eles utilizam sabonete ou shampoo, e ele diz que não, que indios não precisam destas coisas.

Em um segundo momento, “a reporter” comenta que os Indigenas da aldeia utilizam o rio para tomar água, tomar banho e lavar roupas. Em seguida a moça se dirige ao Rio para tomar banho com os indígenas e leva seu xampoo e “ensina” as indigenas a utilizar o produto , como se o mesmo fosse necessário ou indispensável para aquela população. Ao que parece a moça nem chegou a pensar que o Xampoo não é biodegradável e portanto iria poluir as águas do Rio em que outros indígenas, mais a frente, irão beber água.

Será que a repórter está acostumada a beber a água de seu próprio banho ? Será que ela, o apresentador, a equipe de produção e todos os demais que trabalham na “Rede SBT” não se dão conta que este tipo de comportamento apenas prejudica o meio ambiente ao invés de contribuir para o fortalecimento dos povos indígenas e de sua cultura ? Se a gafe foi cometida no local, os editores deveriam, ao menos evitar um processo de “deseducação” em massa através da Televisão.

Em Tempo: Tatiana Cardeal, que tirou a foto dos Kurikuro durante um Quarup, tem um excelente blog, o Brazil> Social Photography, assim como varios alguns de fotos no Flicker, que valem a visita!

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Ameaças à Privacidade na Europa

Posted by dalberto em 15 fevereiro, 2007

Europa quer saber quem está online.

Artigo de Victoria Shannon, dm Paris. Publicado no Herald Tribune em 14/02/2007 com tradução de George El Khouri Andolfato para UOL Midia Global.

titulo = ”; if (subtitulo.length > 2) { document.write (‘‘+subtitulo+’
‘) }Os governos europeus estão preparando uma legislação para forçar as empresas a manterem dados detalhados sobre o uso da Internet e do telefone pelas pessoas, algo muito além do que os países serão obrigados a fazer, segundo uma diretriz da União Européia (UE).

Na Alemanha, uma proposta do Ministério da Justiça basicamente proibirá o uso de informação falsa para a criação de conta de e-mail, tornando ilegal a prática padrão na Internet de criação de contas com pseudônimos.

Uma lei esboçada na Holanda igualmente irá além do que exige a UE, neste caso obrigando as companhias telefônicas a guardarem os registros de exatamente onde alguém está durante toda uma conversa por telefone móvel.

Os provedores de Internet na Europa já divulgam de forma “rotineira” informações sobre os clientes – que eles normalmente mantêm à mão por cerca de três meses, para fins de cobrança – para policiais com ordens judiciais, disse um especialista em privacidade. Os dados detalham como a comunicação foi enviada e por quem, mas não divulga o seu conteúdo.

Mas as autoridades argumentaram na época dos atentados terroristas na Espanha e no Reino Unido, em 2004, que precisavam de um armazenamento maior, melhor e mais longo de dados por parte das empresas que cuidam das redes de comunicação da Europa. A Corte Nacional espanhola dará início nesta quinta-feira (15) ao julgamento dos 29 suspeitos dos atentados a bomba contra trens em Madri, em 11 de março de 2004, que mataram 191 pessoas e feriram mais de 1.800.

Os países da UE têm até 2009 para transformar a Diretriz de Retenção de Dados em lei, de forma que as propostas apresentadas até agora são interpretações iniciais. Mas algumas pessoas envolvidas na questão estão preocupadas com uma mudança no pêndulo da privacidade na Europa, que há muito era uma defensora dos direitos de privacidade dos indivíduos.

Segundo as propostas na Alemanha, os usuários teoricamente não poderiam criar contas de e-mail fictícias, por exemplo, para se disfarçarem em leilões online. Nem poderiam usar uma conta inventada para receber e-mail comercial indesejado. Apesar de não serem proibidos apelidos em e-mails, eles teriam que ser rastreáveis ao dono de fato da conta.

“Isto é uma coisa incrivelmente ruim em termos de privacidade, já que as pessoas cresceram com a idéia de que você pode ter uma conta anônima de e-mail”, disse Peter Fleischer, o consultor europeu de privacidade da Google, em Paris. “Além disso, será difícil aplicar e não funcionará.”

Fleischer, cuja empresa com sede na Califórnia oferece serviço gratuito de e-mail, disse que lei terá que exigir algum tipo de verificação de identidade, “como a necessidade de se registrar para obtenção de um endereço de e-mail usando sua carteira de identidade nacional”.

Jörg Hladjk, um advogado especializado em privacidade da Hunton & Williams, uma firma de advocacia de Bruxelas, disse que também poderá se tornar ilegal pagar em dinheiro por contas de celular pré-pagos. As informações de cobrança de assinaturas regulares de telefonia celular já são verificadas.

“É irônico”, disse Fleischer, “porque a Alemanha é um dos países na Europa onde as pessoas mais falam sobre privacidade. Em termos de conscientização de privacidade em geral, eu colocaria a Alemanha em um extremo”.

Fleischer disse que não está claro se alguma lei européia se aplicará aos provedores de e-mail com sede nos Estados Unidos, como a Google, de forma que qualquer um que necessite de um endereço de e-mail não verificado – por motivos políticos, comerciais ou filosóficos – ainda poderia usar os endereços do Gmail, Yahoo ou Hotmail. “Será difícil saber que lei se aplica”, disse Hladjk.

A Google só exige duas informações para abertura de uma conta no Gmail – nome e senha – e a empresa não tenta determinar se o nome é autêntico.

Na Holanda, a proposta de ampliação da lei para abranger todos os dados de localização dos aparelhos móveis “implica em vigilância de movimento de um grande número de cidadãos inocentes”, disse a Agência Holandesa de Proteção de Dados. A agência concluiu em janeiro que a lei desrespeita as proteções da privacidade da Convenção Européia de Direitos Humanos. De forma semelhante, a Bitkom, a associação setorial alemã de tecnologia, disse que a lei dali viola a Constituição alemã.

As associações do setor de telecomunicações e Internet fizeram objeções quando a diretriz estava sendo debatida, mas na época suas preocupações eram quanto ao prazo da necessidade de manutenção dos dados e como as empresas seriam compensadas pelo custo de reunir e guardar a informação. A diretriz acabou deixando ambas as decisões nas mãos dos governos nacionais, estabelecendo um prazo de seis meses a dois anos.

“Há muitas pessoas na Alemanha que apóiam totalmente este esboço”, disse Christian Spahr, um porta-voz de telecomunicações e lei da Bitkom. “Mas há outros que o criticam mais do que nós.”


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Poder, governança e vigilância na Internet

Posted by dalberto em 22 dezembro, 2006

privacy.jpgUm excelente artigo sobre disputas de poder, monpoólio, vigilância e governança na Internet, apresentado por Sergio Amadeu no congresso da Intercom, em setembro de 2006.


Hackers, monopólios e instituições panópticas

Por Sergio Amadeu da Silveira

Introdução: Velhos Direitos, Novas Violações e a Ambigüidade das Redes.

A comunicação mediada por computador e a digitalização intensa de grande parte dos conteúdos de expressão – textos, sons ou imagens — ampliaram as possibilidades das grandes organizações – Estados, companhias transnacionais e redes criminosas – de observar e rastrear o comportamento e o cotidiano dos cidadãos. A comprovação empírica dessa afirmação pode ser encontrada exatamente nos Estados Unidos, um dos países com grande tradição na defesa da privacidade e, ao mesmo tempo, a nação com o maior número de computadores e internautas. Em dezembro de 2005, o jornal The New York Times divulgou que presidente George W. Bush teria autorizado o NSA (National Secutity Agency) a realizar milhares de escutas telefônicas e scaneamento de e-mails sem a prévia autorização judicial. O governo alega que a Lei USA Patriot, aprovada no fim de 2001, permite a espionagem de pessoas sem consulta ao Judiciário, pois isto seria indispensável para um combate ágil e eficaz ao terrorismo.

No mês de maio de 2006, o site de buscas Google, recusou-se a entregar ao Departamento de Justiça norte-americano uma lista contendo palavras e sites pesquisados por todos usuários durante uma determinada semana. O governo já vinha utilizando as bibliotecas para captar informações sobre o que as pessoas consultam. A Lei USA Patriot permite tais ações de rastreamento. É notável que antes mesmo dos ataques de 11 de setembro, o FBI (polícia federal norte-americana) já scaneava e-mails que transitavam pelos backbones (redes de alta velocidade) e seus roteadores instalados nos Estados Unidos. Esta prática de vigilância ocorria a partir de um sistema chamado Carnivore que permitia ler todos os e-mails e copiar aqueles que continham determinadas frases e palavras-chaves. É importante ressaltar que mesmo denunciado no parlamento por organizações da sociedade civil, tais como a EFF (Eletronic Frontier Foundation) e EPIC (Eletronic Privacy Information Center), o Carnivore violou e-mails de cidadãos americanos e também de estrangeiros. Todas as mensagens “supeitas” que tiveram o território norte-americano como rota de passagem foram violadas.

Talvez muito mais do que os Estados, algumas poucas corporações estão buscando legitimar a alteração no imaginário social sobre o espaço da privacidade em um mundo inseguro. Empresas que controlam algoritmos embarcados nos códigos de programação computacional, amplamente empregados como intermediários da comunicação contemporânea, tais como sistemas operacionais, estão realizando intrusões em computadores pessoais sem que nenhuma reação revoltosa seja noticiada. A tecnologia DRM (Digital Rights Management) usada para tentar impedir o uso não autorizado, denominado “pirata”, de softwares, games, vídeos, filmes e músicas, está permitindo que em nome da defesa do copyright seja destruído o direito a intimidade e a privacidade.

Além disso, o caráter transnacional da rede de comunicação mediada por computador, coloca o problema sobre a definição das regras básicas de operação da rede que são definidas por protocolos de comunicação, padrões e pela estrutura dos nomes de domínios. Emerge a questão da governança da Internet que envolve a disputa entre cinco grandes interesses não necessariamente contrapostos: dos comitês técnicos que definiram até agora os protocolos da Internet; dos Estados nacionais; das corporações de Tecnologia de Informação; da sociedade civil mundial e das várias comunidades hacker; e o interesse do Estado norte-americano. Uma série de decisões aparentemente técnicas que afetarão a privacidade e o anonimato dos internautas estão sendo debatidas e poderão ser adotadas sem que os cidadãos do planeta, que utilizam a Internet, tenham a mínima possibilidade de debatê-las ou mesmo de recusá-las. Se for definido que o protocolo de comunicação básico entre as milhares de redes deverá ter como o padrão o fim do anonimato na comunicação, isto afetará completamente a forma como conhecemos a Internet hoje.

Estes exemplos reforçam a necessidade de observarmos mais atentamente a relação entre comunicação, tecnologia e mudança social. Também indicam que a comunicação mediada por computador, por seu caráter transnacional, afeta cidadania e exige a reconfiguração dos direitos para uma vida coletiva no ciberespaço. Sem dúvida, a rede mundial de computadores tem servido às forças democratizantes para compartilhar não somente mensagens e bens simbólicos, mas também conhecimentos tecnológicos que estão gerando as possibilidades distributivas de riqueza e poder extremamente promissoras. Exatamente nesse contexto, que um conjunto de mega-corporações atuam para manter e ampliar em uma sociedade informacional os poderes que detinham no capitalismo industrial. Para tanto, precisam conter a hiper-comunicação pública e torná-la comunicação privadamente controlada, substituindo a idéia de uma cultura livre pela cultura da submissão ou do licenciamento.

Algumas Considerações Sobre a Noção de Cidadania.

John Perry Barlow, um dos fundadores da Eletronic Frontier Foundation, escreveu a A declaration of the Independence of Cyberspace, em fevereiro de 1996, como reação ao Ato de Decência nas Comunicações, uma lei que visava o controle de conteúdos na Internet, proposta pela administração do presidente norte-americano Bill Clinton. Barlow foi enfático: “Governments of the Industrial World, you weary giants of flesh and steel, I come from Cyberspace, the new home of Mind. On behalf of the future, I ask you of the past to leave us alone.” Apesar do seu apelo, dez anos depois é preciso constatar que ele não foi atendido, nem pelos Estados nacionais, nem pelas mega corporações. Isto porque o ciberespaço não existe descolado do mundo material. A Internet depende da infra-estrutura lógica e física que está sobre o comando de pessoas e empresas que habitam os territórios controlados pelos velhos gigantes estatais, os Leviatãs.

Sem dúvida alguma, a Internet representa uma mudança de paradigma das comunicações e é vista por uma série de teóricos como a maior expressão da chamada revolução das tecnologias da informação (CASTELLS). A supremacia da comunicação baseada na difusão, a partir de um ponto, está sendo substituída pela comunicação em rede. A Internet assegura a possibilidade de qualquer cidadão disputar a atenção da rede para seus sites, blogs ou mensagens. A net é um meio técnico com características intrínsecas que permitem a democratização da criação de conteúdos. Considerando ainda que a Internet é uma rede transnacional baseada no fluxo de dados, que transitam sobre um mesmo conjunto de protocolos e regras de codificação e decodificação de códigos, fica evidente que os Estados nacionais não teriam o controle total do fluxo de conteúdos, como ocorre no caso da TV e do rádio. O fluxo da Internet pode originar-se fora do território nacional. A lei nacional tem enorme dificuldade de ser executada se um provedor de conteúdo que hospeda um site de pedofilia encontrar-se hospedado em um país distante.

Todavia, existem possibilidades de controle de conteúdos e de aplicações que são realizadas por meio da própria tecnologia. É preciso relativizar a idéia de que os Estados não possuem formas de bloquear e até mesmo controlar determinados fluxos da Internet. O governo autoritário da China filtra conteúdos e impede o acesso a determinados sites porque controla os dois backbones por onde transitam todos os dados que entram e saem do país. Desconhecer estas possibilidades de controle significa abandonar a jornada da humanidade na luta pela legitimação do direito à livre comunicação como um dos direitos fundamentais do homem e do cidadão. É olhar somente para as promessas democratizantes da comunicação mediada por computador e esquecer de sua face panóptica. É desconsiderar a gravidade do fato do Google organizar buscas censuradas para poder ter acesso ao mercado chinês, prática já realizada pelo Yahoo e MSN.

Donna Haraway, em sua brilhante reflexão feminista, qualificou o momento em que vivemos como a “transição das velhas e confortáveis dominações hierárquicas para as novas e assutadoras redes (…) de ‘informática de dominação’”. (HARAWAY, p.65) As redes possuem uma linguagem comum entre as máquinas e estas são intermediários indispensáveis para as linguagens naturais humanas, em um ambiente de comunicação via máquinas de processar dados. O jurista Lawrence Lessig já havia alertado, no final dos anos 1990, que no ciberespaço o código tem o mesmo papel de uma legislação. (LESSIG). Exatamente pelos intermediários tecnológicos que Estados autoritários e neo-autoritários (falo dos Estados Unidos), bem como gigantescas empresas imperiais do capitalismo informacional tentam controlar os cidadãos.

Weissberg denunciou a contradição existente entre o desejo de uma comunicação cada vez mais transparente e desintermediada, a partir do dinamismo e do potencial interativo da Internet, e a realidade de sua operação. Por isso, afirmou que “o objetivo de supressão dos intermediários se transforma, conforme seu próprio movimento, em criação de uma nova camada de mecanismos mediadores que automatizam a mediação.”(p.123) Mas como fica a noção de cidadão em um mundo cada vez mais transnacionalizado e com a comunicação mediada por padrões e códigos (softwares) que são apresentados por instâncias definidas como técnicas e distantes dos mecanismos de controle democrático?

Aqui é necessário enfrentar pelo menos duas questões: primeiro, a da evolução da cidadania; segundo, a questão do papel da comunicação e da tecnologia para a mudança ou permanência das relações sociais.

Segundo vários autores, podemos definir “cidadania” como o direito a ter direitos. T. H. Marshall observando a evolução do conceito na Inglaterra, defendeu existir direitos de primeira e segunda geração. Para Marshall, primeiro teriam surgido os direitos civis e depois os políticos (séculos XVIII e XIX). Uma segunda geração de direitos surgiram no século XX e conformariam os chamados direitos sociais. Apesar de acusada de etnocêntrica e linear, a proposição de Marshall passou a ser referência para a observação da mutabilidade histórica da cidadania. Nesse sentido, alguns teóricos observaram o surgimento na segunda metade do século XX dos direitos de terceira geração, ou seja, direitos de grupos, de minorias e etnias, direitos difusos que ganham força em todo o mundo. Questões como o direito ao meio ambiente, o feminismo e a defesa do consumidor, são incorporados em várias legislações e discursos políticos. (LISZT)

A comunicação transnacional mediada por computador coloca a necessidade de reivindicar novos direitos? Como reivindicar novos direitos em um ambiente transnacional? Mas não seria um exagero exigir deliberação democrática e debate público sobre as funcionalidades de sistemas, códigos e protocolos considerados técnicos pelas indústrias de TI e pelo senso comum?

Vamos verificar um caso concreto que interferirá no cotidiano de todas as pessoas do planeta que utilizam e cada vez mais dependem da rede mundial de computadores. O protocolo de comunicação da Internet chamado IP (Internet Protocol) permite o endereçamento de dados entre todas as redes que a compõem. A versão deste protocolo que permitiu a expansão veloz da rede por todo o planeta é denominada de IPv4 e está sendo substituída por uma nova versão, o IPv6. Entre os vários motivos de criar uma nova versão estão as razões de segurança. O IPv6 permite que os cabeçalhos dos pacotes de dados sejam assinados digitalmente por chaves criptográficas. Estas chaves servem para identificar o autor das mensagens. Pois bem, se for definido que o padrão de comunicação entre redes será a identificação criptográfica de todos os pacotes, então a Internet terá suprimido o anonimato na comunicação. Suponha que boa parte ou a maioria dos cidadãos dos vaŕios países do mundo sejam contra o fim do anonimato na Internet. Como influenciarão esta decisão? A quem recorrer? Qual será o fórum de decisão? Ou continuaremos a acreditar que estas decisões são meramente técnicas?

Guarinello coloca-nos um ponto extremamente relevante: “Há, certamente, na história, comunidades sem cidadania, mas só há cidadania efetiva no seio de uma comunidade concreta, que pode ser definida de diferentes maneiras, mas que é sempre um espaço privilegiado para a ação coletiva e para a construção de projetos para o futuro.”(p.46) O problema é que a Internet por ser transnacional não se enquadra facilmente no terreno onde a cidadania tem conseguido avanços, ou seja, nos espaços nacionais.

Entretanto, Liszt Vieira aponta que “recentes concepções mais democráticas pretendem dissociar completamente a cidadania da nacionalidade. (…) Por esta concepção, seria possível pertencer a uma comunidade política e ter participação independente da questão de nacionalidade.”(p.32) Mark Poster avança e questiona: “podem os novos meios de comunicação promover a construção de novas formas políticas não amarradas a poderes territoriais e históricos? Quais são as características dos novos meios de comunicação que promovem novas relações políticas e novos sujeitos políticos?”(p.328)

Talvez uma boa linha de investigação tenha sido lançada por Benedict Anderson quando afirmou que a nação é uma comunidade imaginada. Os meios de comunicação foram fundamentais para a constituição da idéia moderna de nação. A partir dessa perspectiva, Gustavo Lins Ribeiro defende que do mesmo modo que “Benedict Anderson mostrou, retrospectivamente, a importância do capitalismo literário para a criação de uma comunidade imaginada que evoluiria para tornar-se uma nação. Sugiro que o capitalismo eletrônico-informático é o ambiente necessário para o desenvolvimento de uma transnação.” (p.469)

A emergência de uma “comunidade transnacionalmente imaginada”, nos dizeres de Ribeiro, exige o aparecimento de lealdades superiores a dos Estados Nacionais, forjadas a partir do ciberespaço. Nesse contexto, Mark Poster vê a possibilidade de surgimento de uma espécie de cidadão planetário: “o net-cidadão pode ser a figura formativa num novo tipo de relação política, que partilha a lealdade à nação com a lealdade à Internet e aos espaços políticos planetários que ela inaugura.”(p.329)

Comunicação, Tecnologia e o Mito da Neutralidade.

O problema da cidadania, em um cenário de globalização e transnacionalidade, coloca-nos diante da necessidade de enfrentarmos a discussão do papel das comunicações e das tecnologias da informação nos processos de mudança e permanência das relações sociais. Dominique Wolton escreveu:

“Se uma tecnologia da comunicação desempenha o papel essencial, é porque simboliza ou catalisa, uma ruptura radical da ordem cultural ocorrendo simultaneamente na sociedade. Não foi a imprensa que, por si, transformou a Europa, mas sim a ligação entre esta e o profundo movimento que subverteu o poder da Igreja Católica.” (WOLTON, 2003, p.32)

Para Wolton, as tecnologias de informação e os meios de comunicação não criam revoluções, ao contrário, são utilizados pelos processos revolucionários ou mudancistas. Sem dúvida, não foi a revolução industrial que criou o capitalismo, mas sem dúvida alguma, o domínio da tecnologia da máquina assegurou a primazia sobre o processo de apropriação da riqueza produzida e, este domínio econômico, gerou mais poder sobre a sociedade. Os capitalistas não poderiam impor suas relações de produção se não incorporassem a forma mais produtiva e avançada de geração de bens materiais.

Wolton vê nas promessas em torno das tecnologias da informação as mesmas ilusões que geraram prognósticos otimistas para os impactos da TV, do Rádio, do satélite, do cabo, no convívio humano. O teórico francês não percebeu que a TV e todas as formas do paradigma de difusão não têm nenhuma relação com as tecnologias da informação. Estas são mais do que formas de comunicação intensa e múltipla, são também tecnologias da inteligência (LÉVY) que ampliam as possibilidades de transformar informações em conhecimento. São tecnologias que reivindicam um comportamento interativo e se baseiam na proliferação da cópia. Permitem fundir sons a imagens e estas a textos, sendo multidirecionais e capazes de armazenar bilhões de dígitos na mesma máquina receptora e transmissora de mensagens.

Ao afirmar que “a técnica não é suficiente para mudar a comunicação na sociedade”, Wolton pode estar desconsiderando dois importantes elementos: um histórico e outro teórico. Primeiro, a tecnologia da informação nasceu no âmbito do cálculo e do processamento de dados. Somente depois que o computador tornou-se uma ferramenta de comunicação. De um projeto militar no cenário da Guerra Fria, o paradigma da computação em rede surgiu e foi reconfigurado inúmeras vezes por cientistas, hackers e pensadores da contracultura californiana (CASTELLS). Assim surgiu a Internet real, tal como a conhecemos hoje. É inegável que sua expansão está mudando a face das comunicações no planeta. E a comunicação em rede é completamente distinta do broadcasting.

Segundo, talvez a insistência de Wolton em afirmar que a tecnologia não muda a sociedade guarde a concepção de que as tecnologias são socialmente neutras. Técnicas quando inventadas sempre guardam decisões de quem as criou. Muitas delas podem ser reconfiguradas, outras têm o uso ambíguo, como a Internet, mas nunca são criadas sem objetivos, de modo neutro. É exatamente esta a questão que aqui discuto. Decisões sobre a arquitetura das redes e seus protocolos estão sendo tomadas por engenheiros, mas têm grande impacto social e podem limitar ou ampliar a liberdade da comunicação entre as pessoas. São decisões de grande impacto público, portanto, adquirem relevância política, mesmo que tenham sido tomadas por comitês técnicos.

Considerar que determinadas tecnologias guardam potenciais revolucionários, não significa também assumir a proposta de McLuhan. Mattelart criticou a supremacia que McLuhan dava ao meio. Sem dúvida, o meio condiciona, mas dificilmente poderá determinar os conteúdos. São visíveis os exageros de McLuhan quando advogou que “o grande abalo que rompeu o corpo da comunicação e a desmembrou teve lugar na Idade Média. Se a Igreja perdeu posição nessa época, se ela aí perdeu sua unidade mística, foi por causa da tecnologia.”(MATTELART, p.103) Por outro lado, é necessário reconhecer que a invenção de Gutenberg viabilizava a proposta de doutrinadores da Reforma que queriam romper com os intermediários entre o homem e Deus, entre a portador da fé e os escritos sagrados. A impressão de tipos móveis “baniu o estilo de vida comum em favor de uma comunidade massiva onde cada indivíduo pode se tornar um leitor e onde a leitura se torna uma experiência privada.” (idem, p.103)

Em outro texto mais recente, Wolton parece reconhecer a magnitude e a complexidade da comunicação em rede e aponta um problema que indica a necessidade da deliberação pública sobre os caminhos da comunicação mediada por computador, principalmente, a Internet: “É no que o tema da sociedade da informação é perverso: ele homogeneiza tudo e faz desaparecer o homem por de trás dos fluxos de informação. Numa economia do signo, tudo é possível. Cabe então ao homem inventar seus próprios limites.”(WOLTON, 2004, p.155)

Conclusão: Concentração de Poder e Cultura Hacker

Carlos Afonso, um dos pioneiros da Internet no Brasil, ao comentar o debate sobre a governança da Internet na Cúpula Mundial da Sociedade da Informação, ocorrida em duas fases, Genebra, em 2003, e Túnis, em 2005, afirmou:

“Os equívocos de alguns participantes do debate global vão desde acreditar que o tráfego de conteúdo passa pelo sistema de servidores-raiz até pensar que as funções de governança da Internet como um todo deveriam estar sob a alçada da UIT (União Internacional das Telecomunicações). A ICANN também costuma ser apresentada como uma organização global, o que é verdade apenas numa pequena parte e, em termos legais, não o é de forma alguma. A ICANN está sujeita às leis federais dos Estados Unidos e às leis do estado da Califórnia, e o seu poder de governança da Internet está limitado por vários contratos e por um Memorando de Entendimento (ou MoU, na sigla em inglês) envolvendo o governo dos EUA, a ICANN e a principal operadora do sistema global de nomes de domínio, uma empresa privada chamada Verisign.” (AFONSO, p.11)

O que mais chama a atenção na crítica de Carlos Afonso não é a ignorância de alguns participantes, mas o grande poder do governo norte-americano sobre um dos órgãos técnicos que definem regras da comunicação em rede. Por outro lado, este poder não está apenas no contexto da governança da Internet, pois uma sociedade em rede ou informacional exige um conjunto de intermediários e de decisões técnicas de enorme impacto sócio-planetário.

A concentração de poder comunicacional na sociedade da informação poderá ser muito maior do que a ocorrida com a mídia de massas na sociedade industrial. No ano de 2002, mais de 90% dos computadores pessoais do mundo utilizavam o sistema operacional de uma única empresa norte-americana, a Microsoft. O sistema operacional é o principal programa de uma máquina de processar informações. Ele define como a máquina deve agir, como deve alocar a memória, que tipos de programas podem ou não podem ser instalados nela, entre outras funções. “Por dominar a linguagem básica dos computadores, esta empresa também passou a dominar o mercado de navegadores web (browser), uma vez que passou a vender o browser junto com seu sistema operacional, desbancando todos os outros existentes.”(SILVEIRA, p.157)

Mark Poster alerta-nos que a saída para a democratização da sociedade informacional está na construção de novas estruturas políticas fora do Estado-nação em colaboração com as máquinas.”(p. 322) Ou seja, é na formação de um movimento de opinião pública planetário, transnacional, no ciberespaço com consequências em todos os territórios, pois para Poster não há como criar processos decisórios mundiais. Poster acredita que “a nova ‘comunidade’ não será uma réplica de uma ágora, mas será mediada por máquinas de informação. Portanto, o exigido é uma doutrina dos direitos da interface homem/máquina.”(p.322)

Para construirmos a idéia de novos direitos de caráter planetário, será fundamental observarmos a cultura hacker que esteve presente desde o nascimento e em toda a expansão da comunicação baseada nas redes informacionais. A Internet evoluiu aberta, vencendo tentativas de apropriação privada de seus elementos principais, exatamente pela forte influência dos hackers em seus processos vitais. A cultura hacker também está escrevendo uma das mais contundentes críticas a opacidade dos códigos e ao bloqueio do fluxo de conhecimento tecnológico na sociedade da informação. Dela nasceram movimentos como software livre e fenômenos como a maior enciclopédia do mundo, a wikipedia.

Ao estudar a cultura hacker, o filósofo finlandês Pekka Himanen escreveu:

“A ética de trabalho dos hackers consiste em combinar paixão com liberdade, e foi essa a parte da ética dos hackers cuja influência foi sentida com maior intensidade.” (…) “um terceiro e crucial aspecto da ética dos hackers é a atitude dos hackers em relação às redes, ou seja, é a sua ética da rede, que é definida pelos valores da atividade e do cuidar. Atividade, nesse contexto, envolve a completa liberdade de expressão em ação, privacidade para proteger a criação de um estilo de vida individual, e desprezo pela passividade frente à procura pela paixão individual. Cuidar significa aqui a preocupação com o próximo como um fim em si mesmo e um desejo de libertar a sociedade virtual da mentalidade da sobrevivência que tão facilmente resulta de sua lógica.” (p.126)

Os hackers do movimento de software livre estão enfrentando as companhias que buscam monopolizar no planeta o controle dos intermediários da comunicação (softwares, códigos e protocolos da comunicação em rede). Estas companhias alegam que seus direitos de propriedade estão acima de todos os demais direitos, inclusive da liberdade de conhecer, do uso justo de uma obra protegida pelo copyright, do direito à privacidade, à segurança e ao anonimato. Enfim, estamos em uma novo terreno. Dele emanam a reivindicação de novos direitos, direitos de comunicação, de liberdade de expressão e da possibilidade democrática de tomar decisões em uma sociedade em rede, virtual ou ciberespacial. O debate mal começou.

Sérgio Amadeu da Silveira é doutor em ciência política e professor de pós-graduação da Faculdade Cásper Líbero.

Bibliografia

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CASTELLS, Manuel.(2003) A galáxia da internet: reflexões sobre a internet, os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: Zahar Editores.

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GUARINELLO, Norberto Luiz.(2003) “Cidades-Estado na antiguidade clássica”. In: História da cidadania / organização: Jaime Pinsky, Carla Bassanezi Pinsky. São Paulo: Contexto.

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WOLTON, Dominique. (2003) Internet, e depois? uma teoria crítica das novas mídias. Porto Alegre: Sulina.

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Sites:

Electronic Frontier Foundation: http://www.eff.org
Eletronic Privacy Information Center: http://www.epic.org
Free Software Foundation: http://www.fsf.org
Global Internet Liberty Campaign: http://www.gilc.org
SAFERNET: http://www.safernet.org.br

Este texto foi apresentado originalmente no congresso da Intercom, em setembro de 2006.

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Perigos e ameacas na Internet

Posted by dalberto em 2 dezembro, 2006

Algumas dos “micos” da Internet publicados na PC World e reproduzidos no IDGNow nos fazem pensar sobre alguns dos serios problemas e questoes eticas no mundo atual.

Ai vao alguns deles:

2 – Quanto mais da America Online, melhor
Quando a AOL publicou os registros de busca de 658,000 assinantes (os nomes foram substituídos por um número), a empresa sequer podia voltar atrás com a desculpa de que “foi um acidente”. A liberação foi intencional, pois fazia parte de um projeto de pesquisa mal conduzido para dar o conjunto de dados a acadêmicos analisarem o que as pessoas estavam procurando online. O que havia era o de sempre: Britney Spears, passagens de avião baratas e muita pornografia. A AOL removeu os dados, mas só depois que ele foram copiados, buscados e reportados. Os pedidos de desculpas da empresa entraram por um ouvido e saíram pelo outro: a AOL está atualmente sendo processada sobre a questão.

10 – Você está demitido!
O que é preciso para demitir 2500 funcionários? Aconselhamento jurídico? Programa de demissão voluntária? Pilhas e pilhas de documentos? Nada disso. Em 2003, o British Amulet Group mandou embora 2500 empregados enviando uma simples mensagem de texto SMS para os celulares dos funcionários. Pelo menos havia uma desculpa: a empresa acabava de entrar na bancarrota.

8 – Não morri, ainda…
É prática comum de alguns veículos de comunicação preparar obituários com antecedência para aquelas figuras importantes que podem bater as botas a qualquer momento. Mas em 2001 alguém na rede descobriu que os obituários da CNN para famosos quase-mas-ainda-não-mortos estavam publicamente acessíveis. Figuras como Fidel Castro, Dick Cheney e Nelson Mandela tiveram seus óbitos amplamente disseminados antes que a CNN.com, desgostosamente, os tirassem do ar.
6 – O cara errado
Cara ErradoFoi um erro honesto. A BBC havia agendado uma entrevista ao vivo com Guy Kewney, um especialista em tecnologia na disputa “Apple Computer vs. Apple Corps dos Beatles”. Mas alguém se confundiu e colocou um certo Guy Goma no estúdio. O seu olhar assustado na hora em que a repórter perguntava alguma coisa a ele era algo que não era possível de fingir. Goma, originalmente designado para taxista, de fato foi ao estúdio para uma entrevista, só que de emprego. Mais tarde ele afirmou que pensava que tudo fazia parte da metodologia da entrevista. Desde então a BBC tem pedido aos sites de vídeo online para remover esse vergonhoso episódio.

1 – Uma grande maneira de motivar a equipe
BallmerSteve Ballmer, CEO da Microsoft, fará de tudo para manter os empregados da Microsoft motivados e entretidos, nem que seja a seu próprio custo. Deve ter sido esse espírito que fez com que Ballmer subisse ao palco durante um evento da empresa em 2001 para tocar “Get on Your Feet” da Gloria Estefan, fazendo o que seria dublado depois como “The Monkey Boy Dance” (a dança do macaco). Ballmer dançou enquanto gritava “Woooo! Get up!! Come on!!”. Poucos dias depois, Ballmer, sem mostrar nenhum arrependimento, conduziria uma platéia a cantar o video remix “Developers!” de suas duas performances.

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Seminario sobre Cultura Digital

Posted by dalberto em 29 novembro, 2006

Para onde vai a cultura digital?
Inclusão e exclusão digital, os rumos da arte, software livre, criação e distribuição na web, TV digital são temas de seminário no Rio e em Recife
Unir “o ministro da tecnologia” do movimento manguebeat, h.d.mabuse, de Recife, o diretor do Creative Commons no Brasil, Ronaldo Lemos, o coordenador do projeto Puraquê, da Associação dos Amigos da Inclusão Digital da Amazônia, Jader Gama, documentaristas, sociólogos, antropólogos e representantes do Comitê Gestor da Internet para discutir a perspectiva das artes e da comunicação no século XXI é desafio do seminário “A Cultura Além do Digital”. A curadora desta miscelânea de ritmos cibernéticos é a coordenadora do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC) da UFRJ e editora, Heloísa Buarque de Hollanda.
O seminário será realizado entre os dias 4 e 14 de dezembro, nas cidades do Rio de Janeiro (Senac) e Recife (Fundação Joaquim Nabuco), iniciativa conjunta do PACC da UFRJ com o Tangolomango. “A idéia é juntar o pensamento acadêmico com a experiência dos criadores e produtores, que já começam a sentir os efeitos das novas tecnologias em todos os setores”, diz Heloísa.
“Queremos debater tanto a inclusão quanto à exclusão da cultura digital”, acrescenta Marina Vieira, diretora do Tangolomango.
Os debates, que contarão com participantes de todo o país, incluem desde a discussão de software livre à chegada da TV digital até os reflexos destas transformações nas áreas de edição, produção e comercialização de música, literatura, cinema e artes plásticas.
Também estarão presentes, entre outros, o coordenador do Laboratório Telemídia PUC-RJ, Luiz Fernando Soares, a advogada Sílvia Gandelman, o diretor da Central Globo de Comunicação, Luís Erlanger e a documentarista e diretora de Cultura da Fundação Joaquim Nabuco, Isabela Cribari (programação e participantes dos debates em anexo).
O evento, com patrocínio da Petrobras, será transmitido em videoconferência para 40 instituições de ensino em todo país e faz parte do programa Cultura e Pensamento (MinC). Conta também com apoio da Escola de Direito e Tecnologia da Fundação Getúlio Vargas, da Fundação Joaquim Nabuco (Recife) e do Centro de Comunicação e Cultura do Senac, no Rio de Janeiro.
Seminário “A Cultura Além do Digital”
Rio de Janeiro – de 5,6,7,8 e 11,12,13,14 de dezembro
Horário: 18h
Local: Centro de Cultura e Comunicação do Senac Rio
Rua Pompeu Loureiro, 45 – Copacabana – Rio de Janeiro
Tel: (21) 2545-4832
Inscrições: (21) 2509.1235 ou on line (www.tangolomango.com.br)

Recife – 4,5,6 7,8 e 11, 12, 13 de dezembro
Horário: 17h
Local: Fundação Joaquim Nabuco (sala Aloísio Magalhães)
(www.fundaj.gov.br)
Tel: (81) 3073-6479; 3073-6475
Informações para a imprensa:
Diadorim Comunicação
diadorim@diadorim.net
Tel.: 21.2529.6298
Ana Madureira de Pinho (21. 9381.0938)
anamadureira@diadorim.net
Teresa Karabtchevsky (21.

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